sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Reinventar um processo básico da AP - "Casa na Hora"

Clique na imagem e avalie as diferenças entre a situação actual e a situação proposta

A APDSI desenvolveu em seis meses um trabalho voluntário que integrou várias direcções gerais, institutos, autarquias, instituições financeiras, mediadoras imobiliárias e consultoras internacionais, visando "Reinventar um processo básico da AP". O processo escolhido foi a aquisição de casa para habitação, denominado "Casa na Hora".

Propôs-se a redução de 13 interacções do cidadão, para apenas 3, sem redução de nenhuma garantia para o cidadão e para as várias entidades intervenientes, apenas nos limitámos a propor a desmaterialização de alguns procedimentos através da criação de repositórios e identificações únicas (Dossier Electrónico do Imóvel) e eliminação de passos processuais totalmente inúteis numa lógica de relacionamentos digitais entre as várias entidades. Propôs-se a substituição de certidões pela troca de bits em back office e a sincronização progressiva dos repositórios sobre o Cadastro (nacional e autárquico), a Titularidade e a Tributação, cujo desfasamento é ainda hoje deveras preocupante.

Tratou-se de um trabalho exemplar de colaboração voluntária entre instituições públicas e a sociedade civil que, num prazo muito curto, tiveram a ousadia de participar num estudo estratégico de “reinvenção” do actual processo de compra de casa.

Em meu nome pessoal e da APDSI, quero deixar aqui um agradecimento muito especial a todos aqueles que acederam ao nosso convite e que participaram com generosidade e coragem neste estudo.

Há muito tempo que eu não assistia a uma mobilização tão evidente de consensos estratégicos em relação ao futuro, por parte de tantas entidades públicas e privadas.

Ainda há coisas que vale a pena fazer nesta vida e para mim esta foi uma delas!

Quantos processos básicos como este ainda se encontram à espera de estudos do mesmo género, sem limites de espaço político-institucional nem limites de tempo de legislaturas. É tudo uma questão de Boa Governança dos SI/TI, de se conseguir ter um novo olhar 3D sobre os processos e de um verdadeiro Empreendedorismo para mudar a AP.

domingo, fevereiro 11, 2007

Insourcing ou Outsourcing? Uma questão urgente de Gestão!




As decisões de fazer Insource ou Outsource de SI/TI não são absolutas, pois deverão ter em consideração numerosos factores:

  • A maior ou menor certeza em relação ao negócio, que no caso da AP se traduz na maior previsibilidade ou imprevisibilidade da decisão política;
  • A maior ou menor experiência detida internamente com a tecnologia relevante para a solucionar o problema, que deverá ser selectiva tendo em atenção a leitura que se faz em relação às tendências tecnológicas e à aposta prioritária da AP na inovação e menos na manutenção do statu quo;
  • A quantidade e diversidade da oferta externa que dá maior liberdade de escolha e menor dependência em relação aos fornecedores;
  • A especificidade do negócio, que exige maiores cuidados na prevenção contra a dependência excessiva em relação a um único fornecedor, aos custos e ao prazo da relação;
  • A actual disponibilidade interna de recursos técnicos e tecnológicos, que deverá ser cuidadosamente gerida, não apenas por critérios tácticos do presente, mas tendo em atenção as opções estratégicas para o futuro.

Não se pense que os riscos de dependência estão apenas associados ao outsorcing, pois em certas situações de insourcing mal gerido, também os activos de conhecimento pertencem mais às pessoas individualmente consideradas do que às organizações, enquanto entidades que deveriam valorizar e gerir os seus recursos internos de conhecimento.

Na Administração Pública, trata-se de um assunto de elevada soberania do Estado, que deveria ser mais cuidado do ponto de vista de gestão e ser menos objecto de posturas fundamentalistas e extremadas.


2001 Odisseia no Espaço - O papel de Pessoas e Máquinas

Podemos imaginar e até prever com alguma exactidão o futuro tecnológico, mas a absorção da tecnologia por parte das pessoas e das organizações é praticamente imprevisível.

Ao longo da História, o Homem tem demonstrado que é o maior inimigo de si próprio e dos instrumentos civilizacionais que cria em seu redor.

Tal como as professais da Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick em 1968 não se cumpriram em 2001, também não sabemos se daqui a dez, vinte ou quarenta anos a Administração Pública saberá realmente tirar partido da inovação tecnológica e da necessária qualificação dos seus funcionários.

Será que iremos continuar a fazer o que não devemos enquanto Humanos?

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Novos Profissionais TIC e Matriz BCG

Os Profissionais TIC da AP têm de perseguir a Inovação e a Excelência
se querem subir na cadeia de valor e justificar a sua existência face ao mercado privado
Ningém sustenta e desenvolve activos de conhecimento para funções de soberania do Estado, refugiando-se e acomodando-se em castelos cheios de "Vacas Leiteiras" e "Cães Rafeiros".
Os profissionais TIC da AP deverão visar as "Estrelas Brilhantes" e os produtos de "Alto Potencial", relegando para o mercado a manutenção (enquanto duram) das "Vacas Leiteiras" e descartando quanto antes os "Câes Rafeiros".

Prioridades:
  • Dominar a Estratégia do Negócio
  • Dominar a Estratégia das Aplicações
  • Dominar a Estratégia da Infraestrutura Tecnológica
  • Dominar a Arquitectura de Negócio, da Informação, das Aplicações e da Tecnologia
  • Conhecer as tendências tecnológicas e dominar a inovação
  • Conhecer o que os outros fazem de melhor (Benchmarking)
  • Dominar as ferramentas de Gestão (especialmente as financeiras)
  • Gerir as Competências dos Recursos Humanos
  • Aprender, aprender, aprender... sempre e continuamente!
Riscos que conduzem aos fracassos:
  • Uso de componentes não standard
  • Inabilidade e incapacidade para o Planeamento Estratégico
  • Má qualidade de Dados
  • Ineficiência Arquitectónica
  • Incapacidade de gerir a relação de compra e venda
  • Controlo deficiente da execução e da qualidade dos resultados
  • Incapacidade de lidar com o impacto das mudanças de estrutura
  • Incapacidade de recrutar os perfis e as competências adequadas
  • Falta de apoio em momentos de aumento de escala (roll out)
  • Despreocupação com a Segurança
Legenda da Matriz BCG - Boston Consulting Group (Matriz de Portfolio de Produtos):

"Vacas Leiteiras
" - Pequeno Crescimento, Grande parcela do Mercado, Elevado Cash Flow
"Cães Rafeiros" - Pequeno Crescimento, Pequena parcela do Mercado, Cash Flow mínimo
"Estrelas Brilhantes" - Grande Crescimento, Líderes do Mercado, Precisa de Dinheiro
"Alto Potencial" - Grande Crescimento, Pequena parcela do Mercado, Precisa de Dinheiro, Baixos Lucros

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Crise de Identidade da "Olívia"



Com a confusão reinante entre alguns organismos que são ao mesmo tempo Coordenadores e Prestadores de Serviços, onde quase sempre se confundem os papeis e as vocações específicas dos organismos da administração directa e indirecta do Estado, vive-se hoje uma permanente crise existencial e de identidade.
É urgente esclarecer cada um dos papeis que a "Olívia" presta e tornar claros os referenciais que a rodeiam.
É certo que as mudanças "descongelam" velhos paradígmas que se foram desgastando ao longo do tempo, para de seguida "recongelarem" outros paradígmas mais actualizados, mas ninguém consegue viver num stress permanente em busca de novos referenciais que persistem em não aparecer, para poderem ser compreendidos, respeitados e aplicados por todos.
Se for preciso alterar as leis da República e desse modo poder colocar o Estado de "pernas para o ar" e inverter os padrões de soberania, vamos a isso!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Ser ou não ser Estado. Eis a questão!


Um desafio para os Funcionários Públicos que trabalham em SI/TI e não só
Será que queremos aproveitar os activos de conhecimento para crescermos na escala de Valor ou vamos mergulhar na competição sem regras com o mercado à escala global de baixo valor e de baixa soberania para o Estado e para o país?
O mesmo raciocínio se aplica aos inúmeros funcionários que, na sequência da automatização de muitos processos de e-Government, poderão ser dispensados de algumas tarefas de rotina e de baixo valor acrescentado, para efectivamente se requalificarem e crescer na escala de valor, cívico e profissional, passando a apoiar todos os cidadãos e principalmente os 64% de info-excluídos, com um atendimento eficaz e competente (novos "Gestores para a Cidadania").
Também aqui a opção é se queremos ter um Estado vulnerável e promotor de "fantasmas descartáveis" ou um Estado soberano, competente no que respeita à sua missão específica e capaz de ter orgulho pelo Serviço Público que presta à sociedade de forma universal, independente e equitativa?
Qualificar os funcionários e melhorar os serviços prestados aos cidadãos constitui, não apenas um aumento de produtividade do Estado, como cria um clima positivo e sem medos, para o prolongamento útil da vida activa e um estímulo motivacional para a aprendizagem e o crescimento na escala de Valor, rumo a um Serviço Público de qualidade.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Número Único - Sim ou Não?

Perante a emergência de investimentos bastante elevados em soluções tecnológicas para obviar o incumprimento do artigo 35º da Constituição, que impede a criação do Número Único do cidadão, é altura de questionar a perca de qualidade de vida e de acesso a serviços digitais mais integrados e sufisticados, com o argumento de perca de privacidade.
Quem ganha? Quem perde?


domingo, janeiro 14, 2007

Novas estruturas em 2007



Ver também:
Caldeirada Organizacional (Versão 2)
"Caldeirada Organizacional"

SIMPLEX a três dimensões


Já experimentaram olhar para os SIMPLEX em 3 dimensões?
  • Vejam os processos para além de um só departamento, Ministério ou Governo (Central, Regional ou Local)
  • Incluam os cidadãos e as empresas no ambiente operacional da Administração Pública
  • Reutilizem informação já recolhida algures na Administração Pública ("ask once, use many")
  • Acabem com a defesa dos territórios, com os conflitos de poder e as "Feiras de Vaidades"
  • Digitalizem tudo o que puderem - Enviar em vez de Imprimir
  • Tenham um olhar 360º em torno de cada cidadão ou empresa (repositórios únicos e fiáveis) - Queremos ter apenas um só rosto perante a Administração Pública
  • Precisamos de menos medidas e mais integração e interoperabilidade
  • etc
Tentem fazer uma leitura de todas as medidas que se integram com a vossa e tentem reutilizar tudo o que poderem minimizando os incómodos para os cidadãos e as empresas e diminuindo os custos para o país.
Acabem com todos os negócios que vivem à custa da irracionalidade do Estado e que não acrescentam qualquer valor económico ao país.

Posição da APDSI sobre i SIMPLEX 2007

A dinâmica das actividades tradicionais do CIO


A dinâmica das actividades tradicionais do CIO passa pela aceitação do inevitável desmembramento e externalização de algumas funções.
A obra de Marianne Broadbent & Ellen S. Kitzis – “The New CIO Leader” é de leitura obrigatóris. Trata-se de um trabalho conjunto do Gartner com a Harvard Business School.

Ponto de Excelência do CIO


Para se alcançar o Ponto de Excelência do CIO, deve-se caminhar simultaneamente nas três dimensões.
Tema relacionado
Níveis de Credibilidade dos SI/TI

Maturidade das organizações de SI/TI

Vale a pena reflectir sobre as diversas características das organizações imaturas de SI/TI, por forma a evitar cair em "erros velhos":

  • Os processos geralmente são improvisados por pessoas experientes;
  • Se os processos de gestão foram especificados, não são seguidos com rigor ou não são obrigatórios;
  • Postura reactiva. Os gestores normalmente estão focados na solução de problemas imediatos (acção mais conhecida como “apagar incêndios”);
  • Os cronogramas e os orçamentos são frequentemente ultrapassados porque não são baseados em estimativas realistas;
  • Quando prazos que não podem ser ultrapassados são impostos, as funcionalidades e a qualidade do produto são frequentemente comprometidas para que o cronograma seja cumprido;
  • Altos níveis de re-trabalho, o que implica aumento de custos e enormes desgastes;
    A área de TIC é vista pelos membros da organização como “um fim em si mesma”;
  • Não existem bases objectivas para a avaliação da qualidade do produto e nem para a resolução de problemas a ele associados ou ao processo utilizado. É difícil antever a qualidade dos produtos ou serviços;
  • As actividades que objectivam aumentar a qualidade, tais como revisões e testes, são frequentemente reduzidas ou eliminadas em função dos atrasos ocorridos no andamento do projecto;
  • Traços de animosidade latente. Conflitos entre as áreas utilizadoras e TIC;
  • É difícil antever o término dos projectos;
  • Ausência de planeamento ou planeamento superficial.
  • "PROJECTOS PARA TODA A VIDA"

Características das organizações maduras de SI/TI:

  • Habilidade para gerir facilmente identificada. Processos que envolvem toda a organização são definidos e seguidos;
  • Os processos de gestão são cuidadosamente comunicados à equipe já existente e aos novos funcionários;
  • As actividades são realizadas de acordo com o planeamento;
  • A forma de “fazer as coisas” é natural – sem complicações;
  • As evoluções na “forma de fazer as coisas” são documentadas e comunicadas. Implementações de melhoria são feitas levando em consideração a análise de custo-benefício;
  • As regras e os limites de responsabilidades são claras para todos;
    Os gestores monitorizam a qualidade dos produtos e serviços e a satisfação do cliente (interno ou externo);
  • Os cronogramas e os orçamentos são baseados em estimativas realistas e nas experiências acumuladas. Filosofia do desvio mínimo;
  • Existe infra-estrutura de suporte.
  • VISÃO ESTRATÉGICA E SEGREGAÇÃO DE FUNÇÕES

Ver também os modelos de maturidade de Nolan, McFarlan, Earl, Hirschheim, Bhabuta, entre outros.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

O Humor do Miranda de 1975 ainda hoje dá que pensar

Humor de Miranda. in «Jornal de Notícias» - 18-3-1975
Quando assistimos à subordinação da Administração Directa do Estado (Direcções Gerais, Secretarias Gerais, etc.) à Administração Indirecta do Estado (Empresas Públicas, Institutos Públicos, Agências, etc), contrariando tudo o que está legislado na Constituição e nas Leis 3 e 4 de 2004, vale a pena pensar - O que é afinal o Serviço Público? - O que são realmente Funções de Soberania do Estado?
Ver também temas associados:
Um Estado sem soberania e cada vez mais vulnerável
Uma mistura explosiva na governação dos SI/TI na AP
Opções para os Serviços Partilhados e TIC na AP
Soberania, actores e cadeia de valor dos SI/TI na AP

sábado, dezembro 16, 2006

Mais 200 "Lojas do Cidadão" ou "Balcões Únicos"?



360º em torno do Cidadão!


O Governo acabou de anunciar a criação de mais 200 novas “Lojas do Cidadão” e parece que adiou a implementação do conceito de “Balcão Único”.
Parece que em vez de uma efectiva desmaterialização e integração digital de serviços, que se esperaria do “Balcão Único”, anunciado no programa do XVII Governo Constitucional e perseguindo uma perspectiva de legislatura apenas de curto prazo, vamos ter mais do mesmo com a simples concentração física em “centros comerciais de serviços públicos” de serviços tradicionais do tipo “Loja do Cidadão”.
Espera-se que o anúncio de criação de mais 200 lojas do cidadão espalhadas por todo o país, já de si bastante dispendiosas, traga vantagens não só para o cidadão mas também para a redução da despesa pública. Esperamos que não se trate apenas de projectos mais uma vez de construção civil e mediação imobiliária, mas de baixo valor acrescentado do ponto de vista tecnológico como tem acontecido até aqui.
Infelizmente, apesar de existirem quase 18 mil locais de contacto com o cidadão em todo o país, a administração pública parece persistir na abertura de novas lojas do cidadão sem fechar muitos dos pontos de contacto de proximidade que porventura se tornarão desnecessários.
No comércio privado tem-se assistido à alteração de hábitos de consumo através de uma progressiva concentração de lojas em grandes espaços comerciais, acarretando inevitavelmente o fecho de muitas lojas de proximidade. Nenhuma empresa privada se pode dar ao luxo de manter e acumular lojas em espaços comerciais e de proximidade.
Espera-se portanto que se preveja o fecho de pelo menos o triplo das lojas que se vão abrir de novo, ou seja, esperamos que se abram 200 “centros comerciais de serviços públicos” mais modernos e eficientes, mas se fechem pelo menos 600 espaços de proximidade que se encontram antiquados e pouco eficientes.
Mais do que isto esperar-se-ia o reaproveitamento dos actuais espaços públicos e a requalificação de funcionários, porventura reaproveitados da "Mobilidade Especial", para a intermediação entre os 63% dos portugueses excluidos digitalmente (*) e os portais de serviços acessíveis através da Internet e progressivamente mais integrados e orientados às necessidades básicas dos cidadãos e das empresas.
Parecia que a evolução do conceito de “Loja do Cidadão” para “Balcão Único” tinha este propósito, mas ainda estamos longe de alcançar este estágio de maturidade.

(*) Segundo os dados do INE para 2006



Eu escrevi em 1998, no livro "O Futuro da Internet", o seguinte

(que me valeu muito desconforto na altura):




A criação dos "Centros de Formalidades das Empresas" e das "Lojas do Cidadão" tanto podem ser uma grande oportunidade como podem transformar-se numa mera operação de cosmética sem qualquer mudança de fundo no actual estado de coisas. O conceito de "one-stop-shopping" que parece estar por detrás destes novos "centros comerciais" de serviços públicos só poderá resultar em vantagem para os cidadãos se as várias fases burocráticas dos processos de resolução de problemas estiverem sincronizadas através da automatização de fluxos de trabalho inter-departamentais.
Se não houver sincronia, reutilização de informação e automatização de processos não passa de uma mera reinvenção dos velhos Terreiros do Paço adaptados aos novos hábitos de consumo deste final de século. Já não se trata de dar a volta às arcadas dos antigos ministérios com o chapéu na mão, mas percorrer novos corredores e novas "lojas" independentes de serviços públicos que de uma nova forma simpática e vistosa nos exigem as mesmas burocracias e as velhas formalidades de sempre.
A Internet, as Intranets e as Extranets são a grande oportunidade para realizar com sucesso estas novas lojas virtuais nas quais serão produzidos serviços reais e de grande utilidade para os cidadãos e agentes económicos. Com a utilização de cyber-quiosques e de postos públicos de atendimento que permitem o acesso à Internet, directamente ou através de intermediários de informação bem treinados, a distância deixa de ser um factor relevante para a obtenção de produtos e serviços de caracter universal. Com a sincronização dos serviços, através de cadeias e processos digitais, o tempo torna-se mais curto e a burocracia torna-se mais rápida, mais barata e menos penosa para toda a sociedade.
A evolução para as novas Lojas (Digitais) do Cidadão e para os novos Centros (Digitais) de Formalidades é uma inevitabilidade para o século XXI, em que o tempo, a distância e o custo de acesso deixarão de ser relevantes para o cidadão comum.
Este objectivo passa por uma profunda reengenharia de processos administrativos em que os aspectos tecnológicos são os menos relevantes face às barreiras psicológicas, sociais e políticas que teremos que ultrapassar. Temos que destruir muralhas de poder e construir pontes digitais entre os vários organismos envolvidos na prestação de serviços aos cidadãos e às empresas. A Internet está aí para nos servir, esteja ela onde estiver: Em nossas casas, em quiosques públicos, na futura televisão interactiva, nas escolas, nas bibliotecas ou nos serviços de atendimento em geral.

domingo, novembro 26, 2006

Soberania, actores e cadeia de valor dos SI/TI na AP


Mostramos aqui um diagrama esquemático da relação entre a cadeia de valor dos SI/TI e os vários intervenientes em cada uma das diferentes fases, destacando em sombreado as competências de maior soberania por parte do Governo e da Administração Pública.
Mesmo nos programas de reforma mais recentes, ainda não ficaram claras as missões e as competências no âmbito dos SI/TI, que deveremos proteger de forma soberana e aquelas que se devem externalizar de forma mais eficiente e económica, mas se algum dia tivermos de escolher ou nos faltarem recursos para cobrir todas elas internamente, sem dúvida que protegeríamos as duas primeiras (Arquitectura e Gestão) e não hesitaríamos em descartar a terceira (Engenharia).
É aqui que entra o paradoxo do outsourcing, ao exigir que se garantam internamente níveis mínimos de competência tecnológica, para que se possam cumprir, com credibilidade e profissionalismo, relações independentes e sustentáveis com parceiros, clientes e, acima de tudo, com o mercado das tecnologias. Infelizmente ainda assistimos demasiadas vezes à contratação externa de diagnósticos e planos estratégicos de SI/TI, cujas soluções acabam quase sempre por ser implementadas pelos mesmos fornecedores, de forma promíscua e contra todas as regras de segregação de competências.
Mesmo quando segregamos funções de maior soberania e de natureza conceptual, separando-as das funções de engenharia mais operacionais, devemos acautelar sempre um equilíbrio mínimo de competências multidisciplinares capazes de manter o respeito e a credibilidade técnica em todos os domínios dos SI/TI. As funções mais soberanas, que devemos desenvolver e proteger internamente, exigem muita maturidade e uma leitura atenta às inovações, às tendências e ao mercado, quase sempre decorrentes da experiência e aprendizagem contínua em comunidades de prática, no entanto estas competências não se podem tornar reféns nem se devem deixar facilmente deslumbrar com “habilidades” tecnológicas proprietárias e conjunturais.
Infelizmente a maioria dos organismos de SI/TI ainda se limita a desenvolver competências produtivas em vez de competências gestionárias e raros são aqueles que se prepararam para uma relação adequada e profissional com o mercado.

Uma mistura explosiva na governação dos SI/TI na AP



A pretensa criação de alguns serviços partilhados, os quais caem demasiadas vezes na tentação de se transformarem em autênticos serviços centralizados, dotados de soberania e poderes de coordenação, nada tem a ver com a simples prestação qualificada de serviços internos, convenientemente contratualizados com clientes que jamais devem abdicar da sua capacidade de gestão e soberania, serviços estes que são justificados numa lógica estritamente empresarial e numa mera relação de cliente-fornecedor.
A centralização de serviços é quase sempre inimiga da partilha de serviços, uma vez que a centralização se baseia em relações de obediência a uma qualquer autoridade dotada de competências soberanas e a partilha deverá basear-se na celebração (muitas vezes concorrencial) de contratos de prestação de serviços e na garantia de níveis de qualidade devidamente acordados entre fornecedor e cliente.
Apesar da defesa do modelo de serviços partilhados ser evidente no PRACE, no que se refere aos SI/TI, a confusão persiste como se fosse um mundo completamente à parte e desconhecido.
No que se refere à coordenação, reconheço que para os organismos que se habituaram a prestar serviços de forma mais ou menos centralizada ou partilhada aos restantes departamentos do seu ministério, não vai ser fácil ganhar credibilidade e respeito por parte da classe política e dos organismos parceiros. Se isso não acontecer, estas entidades perderão toda a sua legitimidade e razão de existência enquanto entidades independentes e soberanas.
Formalmente já existiam em cada ministério organismos de coordenação de SI/TI, como entidades coordenadoras sectoriais (ECS), nos termos do Decreto-Lei nº 196/99, no entanto este papel foi apenas exercido de um ponto de vista meramente formal e burocrático, sem que se traduzisse no reconhecimento objectivo desta competência por parte dos restantes organismos.
Quando se trata de organismos ao mesmo tempo coordenadores e executores, assiste-se a um verdadeiro conflito de interesses e a uma encruzilhada de papéis verdadeiramente contraditórios e conflituantes.

Temas relacionados:
Opções para os Serviços Partilhados e TIC na AP

quarta-feira, novembro 22, 2006

“Lançar o barro à parede para ver se pega” - Heróis ou vítimas do PRACE

Pela primeira vez em muitos anos estamos a assistir a um teste à responsabilidade, capacidade de decisão e focagem no essencial dos gestores de topo da Administração Pública.
Como foi anunciado e consta dos relatórios sectoriais do PRACE, é intenção do actual Governo reduzir significativamente o número de cargos dirigentes do Estado. Por isso foi atribuída à generalidade dos organismos públicos uma quota limitada de dirigentes, para serem utilizados numa estrutura mais “magra”, mas mais confinada às atribuições essenciais de cada organismo.
Infelizmente estamos a assistir a uma desresponsabilização e mesmo a uma desobediência generalizada dos dirigentes de topo que, “ensanduíchados” entre as orientações políticas e as pressões das suas actuais estruturas dependentes, preferem continuar a desempenhar o papel de “bonzinhos da fita”, propondo estruturas praticamente idênticas às actuais para agradar aos seus subordinados e remeter para as respectivas tutelas políticas o papel odioso de efectuar os “cortes” menos racionais e até indiscriminados.
No final estes dirigentes de topo que cultivam o "V. Exª decidirá" ficam sempre a ganhar, quer acabem por ser "heróis conquistadores de cargos” suplementares para os seus organismos, quer acabem por ser “vítimas incompreendidas” de políticos intransigentes e determinados.
Esta já é uma prática corrente na elaboração dos orçamentos, em que anualmente se “atira o barro à parede para ver se pega”. Depois os organismos queixam-se que o Governo e em particular os contabilistas do Ministério das Finanças procedem a cortes indiscriminados, não só em “gordura”, mas também no “músculo” e até em “órgãos vitais”.
Esquecem-se que foram eles os responsáveis por não saber nas alturas adequadas decidir e fazer escolhas estratégicas em relação ao essencial do seu negócio.
Lembramos que existem por ai muitos cursos que incluem técnicas de Balanced Scorecard, análises SWOT e matrizes BCG, que fariam falta a muitos dirigentes indecisos e amedrontados com a situação actual.
Estão-se a viver momentos de grande contracção das estruturas do Estado, mas também é a altura adequada para se saber quem são os dirigentes corajosos e responsáveis e aqueles que não passam de "jogadores na roleta do poder" que querem sempre “estar bem com Deus e o diabo”, "agradar a gregos e troianos" e acreditam que é possível "fazer sol na eira e chuva no nabal".
Vamos ver se o PRACE não vai ser mais uma “montanha a parir um rato”, continuando assim a aumentar a espiral do défice em Portugal.
Cada Governo tem os dirigentes que merece!

sábado, novembro 11, 2006

Os dirigentes actuais fazem sobretudo parte do problema e não da solução


As mais de mil páginas do PRACE, ao invés de tornar claras as opções estruturais da Administração Pública em matéria de governação dos SI/TI, permitem leituras subjectivas e implementações orgânicas que servem várias visões e conveniências. Se os organismos de SI/TI quiserem manter-se como estão em torno de funções mais operacionais e auto-protegidas pelo conservadorismo pseudo-tecnológico, haverá com certeza algures no PRACE argumentos que legitimem tal opção, mas se pretenderem mudar para funções mais estratégicas, conceptuais e gestionárias, também não faltará quem se reveja nos termos daquele documento. Sem dúvida que esperávamos referenciais mais claros de um documento que se pretendia estratégico e orientador.
Mais do que nunca, hoje vivemos condições de crise aberta, que se traduzem em oportunidades ímpares de mudança para a Administração Pública e em particular para a forma como encaramos o papel do Estado nos SI/TI. Podemos dizer que vivemos um momento em que se pode mudar, embora persistam sinais de não se querer e também de não se saber como mudar no domínio da governação dos SI/TI no sector público.
Não deixo de concordar e louvar a maioria das iniciativas decorrentes do PEC e do PRACE, mas é urgente definir e clarificar a estratégia e o papel do Estado no domínio dos SI/TI, bem como a vocação e competências dos respectivos organismos, para que possamos usufruir dos benefícios efectivos decorrentes das reformas em curso.
Muitas pessoas em contextos de mudança mal gerida e mal clarificada, evitam envolver-se na solução dos problemas existentes na situação actual, por defesa própria e medo do desconhecido, acabando quase sempre por ser os principais protagonistas do próprio problema, quer por omissão, quer por reacção.
Muitos dos recentes normativos pretensamente orientadores da reforma, nomeadamente as próprias leis orgânicas dos ministérios, não passam de intenções de melhoria mal objectivadas e que deixam demasiada liberdade ao arbítrio dos verdadeiros agentes da mudança, que são os actuais dirigentes dos organismos afectados.
No caso das estruturas de SI/TI a situação é particularmente mais crítica, porque aparentemente não se tratando de "áreas core" do Estado, continua a não existir uma efectiva condução política destes domínios mais ou menos “excêntricos” para a generalidade dos políticos e persiste-se em não se querer perceber a criticidade e urgência da sua governação. São portanto um espaço fértil para a exploração da iliteracia tecnológica de uma certa classe política, que acaba por cair facilmente em estados extremos de terror ou deslumbramento, continuando a ficar reféns de uma tecnocracia cada vez mais florescente e descontrolada.
Os SI/TI têm que deixar de ser entendidos como simples implementações de projectos e “choques” tecnológicos, mas como verdadeiras acções interdisciplinares de mudança, que exigem um olhar cada vez mais estratégico e arquitectónico e uma condução cada vez mais política. A actual indefinição e falta de condução político-estratégica dos SI/TI do Estado, perpetuam a auto-determinação e o conservadorismo de algumas das suas actuais estruturas, a pretexto de uma aparente complexidade tecnológica que se auto-protege e se auto-legitima para se excluir de alguns constrangimentos do processo de mudança em curso.
Como parte interessada e sendo juízes em causa própria, na maioria das vezes os actuais dirigentes fazem parte do problema em vez de contribuírem para a solução e tendem a fazer aquilo que podem para manter tudo na mesma, acabando por desencorajar e inviabilizar todo o processo de mudança (*).
Num processo de mudança como o que se está a viver actualmente, mais do que bons gestores, são necessários bons líderes, orientados por valores, visão, sentimentos, proactividade, comprometimento, persuasão, inovação, flexibilidade, comunicação, etc., mas estes são difíceis de encontrar, quando o que se pretende é apenas conformismo e obediência política, mesmo que isto signifique continuar a actuar no cinismo e em jogos sub-reptícios de poder.
Não se pode temer o conflito e, na actual conjuntura, deve-se utilizar positivamente a energia que dele resulta. A liderança dos SI/TI nos nossos dias exige escolhas e decisões difíceis, por isso tem cada vez mais a ver com a capacidade de lidar com a mudança e o saber construir sem medo um mundo melhor através de uma combinação adequada de pessoas, processos e tecnologias.

(*) Worley e Lawler, “Designing Organizations That Are Build to Change” – MIT Sloan Management Review, Fall 2006, pág. 19-23